ENTRETENIMENTO

Emoldurando as cidades

Artistas urbanos destacam-se por sua produção democrática e levam imagens das ruas para museus e galerias.

 

A arte urbana virou fenômeno mundial. Até há pouco tempo, era praticada de forma marginal e estava restrita a fachadas de edifícios e muros. Hoje, está presente em galerias, museus, bienais, leilões e até mesmo em projetos de decoração. E os artistas brasileiros figuram entre os mais importantes da cena internacional, graças à singularidade de seu talento.

Neste ano, uma série de eventos mostrou que a linguagem artística que nasceu da tradição do grafite nas periferias das grandes cidades caiu definitivamente nas graças do público e da crítica especializada. Em setembro, uma das grandes atrações da Feira Internacional de Arte do Rio de Janeiro foi a mostra paralela ART RUA, com intervenções artísticas nas ruas da região portuária que reuniram mais de 50 grafiteiros, entre brasileiros e estrangeiros. “Não há mais dúvida de que a arte urbana é uma importante vertente da arte contemporânea. Os mais conceituados museus do mundo já realizaram exposições inteiramente dedicadas a ela ou a artistas que têm um trabalho baseado na arte urbana”, afirma Jordons Francisco, da QAZ Galeria de Arte, em São Paulo, uma das principais do setor.

Como a QAZ, surgiram recentemente espaços especializados em arte urbana. Em São Paulo, a Galeria Logo já é referência no assunto. “Alguns de nossos artistas estão entre os principais nomes da arte urbana brasileira, mas posicionamos o trabalho que desenvolvem em seus ateliês no contexto mais amplo da arte contemporânea”, afirma Lucas Ribeiro, um dos sócios. “É claro que a relação particular que eles têm com a cidade influencia a linguagem, mas o resultado é bem diferente da arte de rua. Não que seja melhor ou pior, é outra coisa.”

Pioneira na capital paulista, a Choque Cultural representa grandes nomes do segmento, como Carlos Dias, o Coletivo BijaRi, Daniel Melim, Jaca, Rafael Silveira, Stephan Doitschinoff, o argentino Tec e Znort. “A galeria está em uma fase madura, por isso optamos por trabalhar comercialmente com artistas já consolidados”, diz Baixo Ribeiro, que fundou a Choque Cultural em 2004, em sociedade com Mariana Martins (filha do pintor Aldemir Martins) e Eduardo Saretta.

 

Criação do artista holandês Karski para a Bienal do Grafite do MuBe, realizada este ano em São Paulo.

Criação do artista holandês Karski para a Bienal do Grafite do MuBe, realizada este ano em São Paulo.

 

 

Em ascensão

São são poucas as galerias dedicadas à arte contemporânea que passaram a contemplar também a estética da arte urbana nos seus acervos. Em São Paulo, a Galeria Paralelo representa o artista Vermelho; a Fortes Villaça, Osgemeos, considerados os embaixadores da street art nacional; e a Galeria Leme, Nina Pandolfo, cuja exposição individual, neste final de ano, alcançou grande sucesso. No Rio de Janeiro, a Inox, além de uma seleta gama de artistas contemporâneos, tem em seu portfólio Alexandre Orion e Smael; e a Gentil Carioca, o artista Carlos Contente.

O sucesso desses nomes já ultrapassa as fronteiras do País. “Acabo de fazer minha segunda exposição individual na galeria que me representa em Paris, a Brugier-Rigail”, conta Smael. O artista carioca já recebeu vários convites para exposições internacionais em 2014, sendo uma individual em Dubai e outra com o americano Crash, um veterano do grafite em Miami. Já o artista Vermelho tem se destacado por cenografias premiadas que lhe renderam contatos promissores na Europa.

Nas grandes feiras de arte, é cada vez maior a representatividade da linguagem urbana. Na primeira edição da PARTE, em 2011, eram apenas três as galerias dedicadas ao estilo. Em 2013, foram 20. “A estética urbana atrai tanto o colecionador mais experiente que busca novidades quanto quem planeja começar uma coleção”, diz Tamara Brandt Perlman, uma das organizadoras.

 

serigrafias “ASA” (à esq.), de Carlos Dias, e “Sem Título”, Daniel Melim, representados pela Choque Cultural, a primeira galeria da capital paulista dedicada à arte urbana

Serigrafias “ASA” (à esq.), de Carlos Dias, e “Sem Título”, Daniel Melim, representados pela Choque Cultural, a primeira galeria da capital paulista dedicada à arte urbana.

 

Segundo ela, é cada vez mais comum as pessoas olharem uma obra na feira e reconhecerem o artista por já terem visto trabalhos de sua autoria nas ruas. O contrário também acontece: as pessoas passam a distinguir na rua imagens de artistas com trabalhos na feira. “É uma dinâmica enriquecedora, que gera uma nova fonte de prazer, de olhar para a rua e para a cidade com um interesse renovado.”

Instituições tradicionais do circuito artístico têm desempenhado papel importante na valorização da arte urbana. O Museu Brasileiro da Escultura (MuBe), em São Paulo, realizou, no início deste ano, a segunda edição da Bienal Internacional Graffiti Fine Art, que reuniu cerca de 50 artistas, do Brasil e do exterior. Neste ano, a Bienal Internacional de Curitiba dedicou espaço à arte pública.

Em 2011, para mostrar o quanto a ideia de arte pública estava se transformando, Teixeira Coelho, curador da Bienal de Curitiba e do Museu de Arte de São Paulo (Masp), realizou a mostra De Dentro para Fora/De Fora, com grandes nomes do segmento em nível mundial. Na época, a prefeitura da capital paulista havia decidido não mais aprovar a instalação de bustos nas praças públicas com a justificativa de que esse tipo de arte pertence ao século 19 e nada acrescenta ao cenário urbano atual.

Acima, o paulistano Fernando Chamarelli na reta final de seu mural para o Sesc Consolação. Na foto menor, obra de Tomas Spicolli, um dos artistas presentes na edição de 2013 da Feira PARTE

Acima, o paulistano Fernando Chamarelli na reta final de seu mural para o Sesc Consolação. Na foto menor, obra de Tomas Spicolli, um dos artistas presentes na edição de 2013 da Feira PARTE.

 

Mesmo nas ruas, a arte urbana vem ganhando um novo status. É o caso do Museu Aberto de Arte Urbana de São Paulo (Maau-SP), conjunto de mais de 60 painéis de grafite concebidos na Avenida Cruzeiro do Sul, entre as estações de metrô Santana e Portuguesa-Tietê, na zona norte do São Paulo, um dos berços do grafite na cidade. Em Curitiba, foi inaugurada neste ano Galeria Arte Urbana – Memórias de Curitiba, a céu aberto. Iniciativas como essas revelam que a arte urbana tem reflexos nas cidades, que ganham uma nova dimensão simbólica, e no próprio sistema artístico, que se abre para experiências que derrubam as fronteiras entre o culto, o popular e o massivo, fazendo surgir uma arte menos elitista e mais democrática.

 

Dos muros aos museus

A arte urbana tem como berço a tradição do grafite, estilo de pintura mural feita principalmente com spray, a partir dos anos 1970, em Nova York, no contexto da chamada cultura hip-hop, que congregava comunidades latinas e afro-americanas. Na década seguinte, nas grandes metrópoles, surgiram variações dessa linguagem visual. Diferentemente da “pichação”, focada na escrita, os novos pintores passaram a incorporar formas figurativas ou abstratas em seus trabalhos.

Os nomes de maior destaque na atualidade têm um trabalho baseado em um forte projeto estético. É o caso de dezenas de artistas brasileiros reconhecidos internacionalmente, como Carlos Contente, que começou a pintar nas ruas no início dos anos 2000 e tem uma obra focada no encontro do desenho com a palavra, como mostrou recente exposição na galeria paulistana Emma Thomas.

Independentemente da formação, são artistas que inauguraram um novo capítulo na história da arte. Fazem arte, e não grafite. A nova geração lembra nomes marcantes da história, como Jean-Michel Basquiat e Keith Haring, que nos anos 1970 já pintavam muros em Nova York com um estilo que mesclava a influência das imagens do submundo do spray com repertório da pop art, já consagrada no sistema artístico oficial.

Obra do carioca Smael (Inox Galeria): exposição individual em Pari

Obra do carioca Smael (Inox Galeria): exposição individual em Paris

 

No Brasil, Alex Vallauri (1949-1987) é considerado uma espécie de “Basquiat brasileiro”. Recentemente, uma retrospectiva de seu trabalho no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, e o lançamento do livro Alex Vallauri (Editora Bei), escrito pelo pesquisador João Spinelli, lançaram luz sobre o pioneirismo do artista, que tinha uma preocupação declarada em fazer arte acessível e democrática. Tendo começado sua carreira com a gravura, ele passou, no final dos anos 1970, a usar muros e paredes como suporte para suas obras.

 

Acima, um dos espaços da Bienal do Grafite deste ano: mais de 50 artistas, entre brasileiros e estrangeiros

Acima, um dos espaços da Bienal do Grafite deste ano: mais de 50 artistas, entre brasileiros e estrangeiros.

 

Para definir essa nova linguagem, o termo “arte urbana” vem sendo utilizado por teóricos e especialistas para definir obras que “transpõem a linguagem do grafite e da pichação para os suportes possíveis de colecionar, como telas, fotografias, esculturas e objetos”, explica Tamara, da Feira PARTE. “São linguagens que rapidamente se integraram à produção de estúdio, o que às vezes torna difícil delimitar seus contornos.”

Nesse território híbrido, há artistas que nem chegaram a pintar na rua, mas têm influência de uma cultura urbana expressiva. É o caso de Andrey Rossi, representado pela galeria QAZ, que utiliza materiais como lona de caminhão e madeira encontrada em ruínas em suas colagens.

Com uma vertente fortemente pictórica, o paulistano Fernando Chamarelli foi reconhecido mais no exterior que no Brasil no início de sua carreira. “Pintar na tela é um trabalho solitário, planejado. Na rua, tudo pode acontecer”, diz o artista.

A criatividade não tem limites quando se trata de inventar novas técnicas. O duo paulistano 6emeia, formado por Anderson Augusto e Leonardo Delafuente, criou um jeito inovador de fazer gravura. “Pela primeira vez, o asfalto virou a matriz de uma gravura”, conta a dupla, conhecida por pintar bueiros com imagens bem-humoradas e efeitos tridimensionais surpreendentes.

 

No alto, obra de Alex Vallauri (foto menor), considerado o “Basquiat brasileiro”, e Nina Pandolfo com uma das obras de sua mais recente mostra, na Galeria Leme (SP). Acima, mural do baiano Bgod para a Bienal do MuBe e trabalho de Daniel Melim

No alto, obra de Alex Vallauri (foto menor), considerado o “Basquiat brasileiro”, e Nina Pandolfo com uma das obras de sua mais recente mostra, na Galeria Leme (SP). Acima, mural do baiano Bgod para a Bienal do MuBe e trabalho de Daniel Melim.

 

A cidade de São Paulo se destaca como uma das mais produtivas do mundo, tanto pela qualidade quanto pela quantidade de seus artistas. Basta um passeio pelas ruas para comprovar a tese. Para isso, alguns roteiros podem ajudar. Um exemplo é o projeto Arte Fora do Museu, que oferece aplicativo para iPhone (arteforadomuseu.com.br). Além disso, a São Paulo Turismo tem um roteiro temático em PDF (www.cidadedesaopaulo.com).

 

Texto Alessandra Simões

 

Privacy Settings
We use cookies to enhance your experience while using our website. If you are using our Services via a browser you can restrict, block or remove cookies through your web browser settings. We also use content and scripts from third parties that may use tracking technologies. You can selectively provide your consent below to allow such third party embeds. For complete information about the cookies we use, data we collect and how we process them, please check our Privacy Policy
Youtube
Consent to display content from Youtube
Vimeo
Consent to display content from Vimeo
Google Maps
Consent to display content from Google
Spotify
Consent to display content from Spotify
Sound Cloud
Consent to display content from Sound