ENTRETENIMENTO

Novo Traçado

Conheça a geração de arquitetos que está redesenhando as cidades brasileiras com projetos inteligentes e tecnologias inovadoras.

Metro Arquitetos

“A nova geração tem uma visão mais empreendedora”, diz Martin Corullon

 

Os sócios Gustavo Cedroni (à esquerda) e Martin Corullon em montagem sobre a maquete de um dos mais recentes projetos do escritório, que tem ainda como sócia Anna Ferrari: um edifício multiuso em São Paulo, com escritórios, lojas e um hotel.

 

 

Eles acreditam que a arquitetura pode mudar a vida das pessoas e estão transformando as cidades brasileiras em lugares melhores para viver. Com escritórios em evidência no mercado na última década, a nova geração de arquitetos aposta em desenhos inteligentes, técnicas inovadoras, recursos ecológicos e muita criatividade estética.

Reconhecidos por publicações e premiações no Brasil e no exterior, esses profissionais, a maioria entre 30 e 40 anos, vêm sendo incentivados por um mercado imobiliário aquecido. Incorporadoras, o poder público e consumidores interessados em ter um imóvel diferenciado investem cada vez mais em projetos com estrutura e formas ousadas.

Em São Paulo, a abertura do mercado imobiliário para propostas arrojadas está consolidada. Os edifícios projetados pelo escritório franco-brasileiro Triptyque, fundado por Greg Bousquet, Olivier Raffaelli, Guillaume Sibaud e Carolina Bueno, em 2000, por exemplo, já se tornaram referência. A equipe assina obras importantes, como um premiado edifício na Rua Colômbia, no Jardim Europa, sede da agência Loducca, com intrigantes formas curvilíneas, e um prédio residencial na rua Fidalga, na Vila Madalena, que se tornou famoso por sua fachada predominantemente preta.

“Queremos desconstruir a ideia de que a cidade deve ser racional e ter tantas formas repetidas. A clonagem arquitetônica é uma doença que precisa ser combatida”, afirma Olivier Rafaelli, lembrando que cada apartamento do edifício da Fidalga tem um elemento arquitetônico exclusivo, como terraço, pátio, jardim, modelos de janelas e planta livre, permitindo diferentes divisões internas, com modulação hidráulica e distribuição elétrica.

O arquiteto Matheus Seco, um dos fundadores do escritório DOMO, em Brasília, acredita que um bom projeto começa com um bom cliente e que o momento profícuo da arquitetura brasileira é reflexo da mudança de comportamento da sociedade. “As pessoas estão mais conscientes, sabem que, quando um projeto é bom para sua vida, é bom para a cidade”, diz.

Em funcionamento desde 2008, o DOMO, formado também por Daniel Mangabeira e Henrique Coutinho, destaca-se por projetos autorais. É o caso de residências premiadas como a casa Tangram, inspirada no quebra-cabeça oriental e que evoca a ascendência japonesa dos moradores. Uma das fachadas da casa foi toda feita de cobogós, elemento vazado ícone do modernismo, o que revela a influência desse movimento nos projetos do escritório. “Quando nos formamos, no final dos anos 1990, não havia abertura para projetos ousados”, diz Matheus. Ele cita como exemplo da mudança de mentalidade a iniciativa de uma escola, que encomendou à sua empresa um edifício com soluções ecológicas. O resultado é uma construção que explora a iluminação e a ventilação naturais e dispensa o uso de ar-condicionado.

O novo cenário também decorre das próprias mudanças na profissão, como explica Martin Corullon que, junto de Anna Ferrari e Gustavo Cedroni, fundou, em 2000, o escritório Metro, em São Paulo. “Antes, os arquitetos trabalhavam com um modelo mais de ateliê. A nova geração tem uma visão mais empreendedora”, compara. Corullon debutou no métier estagiando no escritório de Paulo Mendes da Rocha, um dos mais renomados arquitetos brasileiros e ganhador do prêmio Pritzker em 2006 (o Nobel da arquitetura). A parceria se mantém até hoje. “É um privilégio trabalhar com ele, um processo muito colaborativo.”

Atualmente, Paulo Mendes da Rocha e a equipe do Metro estão finalizando o projeto do complexo cultural Cais das Artes, em Vitória (ES), enorme volume arquitetônico que parece flutuar sobre a esplanada na Enseada do Suá. Na capital paulista, as equipes assinaram recentemente o projeto da nova Galeria Leme, no Butantã, composta por dois grandes blocos (um deles, réplica da antiga galeria), cuja geometria simples e volumetria impactante rementem ao “estilo brutalista” da escola moderna paulista. “A influência dessa tradição é muito
evidente em nosso trabalho, mas estamos sempre fazendo conexões também com o que acontece fora do Brasil”, explica Corullon.

Museu a céu aberto

Em Minas Gerais, o Instituto Inhotim, gigantesco complexo cultural e ecológico próximo à cidade de Brumadinho, serviu de palco para várias das mais expressivas produções da nova geração. Algumas dessas obras foram projetadas pelo escritório Arquitetos Associados, de Belo Horizonte. É o caso da Galeria Miguel Rio Branco, dedicada à obra do fotógrafo que nasceu na Espanha e vive no Rio de Janeiro.

A estrutura da construção compõe-se de uma volumetria geométrica e assimétrica, revestida de aço patinável (mais resistente à corrosão), sujeito a transformações na textura e na cor pela ação do tempo. Com poucos elementos arquitetônicos prosaicos, como portas e janelas, a galeria assemelha-se a uma grande escultura abstrata. “Nos edifícios e espaços públicos que projetamos, procuramos sempre dar prioridade ao domínio público em detrimento do privado, buscando uma relação que amplifique a qualidade urbana”, afirma Carlos Alberto Maciel, um dos sócios do escritório.

O badalado bairro da Vila Madalena, em São Paulo, em fase de intensa verticalização, teve sua paisagem redesenhada por prédios de escritórios singulares, muitos com a assinatura desses novos profissionais. Recém-concluído, o edifício Box, na rua Wizard, projetado pelos arquitetos Vinicius Andrade e Marcelo Morettin, sócios no Andrade e Morettin, destaca-se por seu aspecto lúdico e fora do comum: fechamentos com telhas metálicas coloridas, onde estão inscritos os números dos conjuntos, conferem ao prédio a aparência de um enorme conjunto de contêineres empilhados.

O Una Arquitetura, fundado em 1996 por Fábio Valentim, Fernanda Barbara, Fernando Viégas e Cristiane Muniz, projetou um edifício na rua Harmonia que prevê pé-direito duplo, varandas, espaços livres e comunicação do térreo com a calçada. “É um exemplo de que a arquitetura pode colaborar com a vida pública, com recuos mais generosos, espaços integrativos e sem grades”, afirma Fernanda, que também se orgulha das obras residenciais de grande repercussão internacional feitas pelo Una, como uma casa no bairro paulistano de Boaçava, construída quase toda com concreto armado, material que serviu de estrutura e elemento definidor da forma.

O edifício Corujas, na rua Natingui, é outro destaque entre os edifícios comerciais da nova geração. Projetado pela equipe do FGMF – escritório de Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes –, oferece extensa integração entre ambientes internos e externos, com muitos jardins e áreas para pedestres. “Organizamos espaços mais fluidos, com pouca divisão. Varandas e transparências ajudam a criar momentos de transição, resultando em uma arquitetura mais humanizada”, explica Fernando.

Os arquitetos da FGMF têm como proposta o uso de diferentes tipos de material. “Não temos preconceito, e isso sempre nos ajuda a encontrar um jeito novo de encarar os diferentes desafios do trabalho”, explica Marcondes, citando como exemplo a premiada Casa Grelha, na Serra da Mantiqueira, em São Paulo, que congrega pedra, concreto, madeira e metal. O destaque é a imensa grelha de madeira com módulos ora ocupados por ambientes fechados ora totalmente vazados, permitindo que árvores do jardim inferior atravessem a estrutura.

 

Texto Alessandra Simões Retratos Mário Águas

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