ENTRETENIMENTO

Sobre Humor, Delírios e Tolerância

Entre musicais nos palcos e séries inusitadas na TV, Miguel Falabella tirou um tempinho para dirigir seu segundo filme, o doce e melancólico “Veneza”.

Miguel Falabella é o tipo de artista que não para, mas isso todo mundo está careca de saber – inclusive ele, que raspou o cabelo
para interpretar o milionário Oliver Warbucks em Annie, musical da Broadway em que trabalhou pela primeira vez com a atriz e amiga Ingrid Guimarães. Mas algo mais profundo acontece no coração de Falabella entre as aulas de canto e dança necessárias para enfrentar tal maratona musical. É que o ator, diretor, dramaturgo e produtor finalizou recentemente seu segundo longa, o sensível e pessoal Veneza, que tem patrocínio do Banco Daycoval.

Pouco mais de dez anos após sua estreia no cinema, na comédia Polaroides Urbanas, o carioca mudou de registro e abraçou o fantástico para contar a história de Gringa – interpretada pela espanhola Carmen Maura, dos filmes de Pedro Almodóvar –, uma cafetina que, velha, doente e cega, decide acertar as contas com seu grande e único amor, roubado e enganado por ela em um distante passado. É aí que entram suas “meninas” (Dira Paes, Danielle Winits e Carol Castro) e um fiel cliente (Eduardo Moscovis), todos dispostos a ajudá-la. Mas logo descobrem que não conseguirão dinheiro para a viagem e, com a ajuda de um circo, recriam a Veneza dos sonhos de Gringa.

“Veneza é um filme que eu queria muito fazer. Ele fala ao mundo e, ao mesmo tempo, é extremamente latino. Sempre fui fascinado pelo realismo mágico, que é uma tradição muito forte na América Latina. Como todos nós somos irmanados por tragédias políticas, sangue, injustiça e crueldade, a fuga para o mágico, para o delírio, é um traço muito forte que nos une. Acho encantador esse poder do ser humano de transformar seu mundo através do sonho”, explicou Falabella em seu apartamento, em São Paulo, pouco antes de encarar outra aula de canto. “Fiz questão de criar uma espécie de limbo no filme. Na minha cabeça, todas aquelas pessoas estão mortas, vagando. Não se sabe em que época aquilo se passa. É uma coisa indefinida, um delírio mesmo. É, literalmente, uma viagem fantástica. E muito tocante. Quem já assistiu ficou muito tocado.”

 

Ritmo intenso

Filmado em apenas 28 dias, sendo 25 deles em Montevidéu e três em Veneza, a produção é baseada em uma peça curta do argentino Jorge Accame que já havia sido expandida por Falabella no teatro em 2003, tendo Laura Cardoso como protagonista. “Desde a montagem teatral, pensei na possibilidade de transformar Veneza em um longa-metragem. Mas precisei de um filme antes para ver se eu sabia fazer cinema.  Achei que saiu direito e que poderia alçar voos maiores. Mas minha vida é difícil, muita coisa, muita TV, muito teatro. E é difícil e caro fazer cinema no Brasil.”

Falabella não está brincando quando diz “muita TV, muito teatro”. Nos dez anos que separam Polaroides Urbanas e Veneza, dirigiu, escreveu e/ou produziu cerca de 16 peças (sucessos como Cabaret, O Homem de La Mancha, A Gaiola das Loucas, Alô, Dolly! e Hebe, o Musical). Para a TV, escreveu duas novelas (Negócio da China e Aquele Beijo) e cinco séries (Toma Lá, Dá Cá, A Vida Alheia, Sexo e as Negas, Brasil a Bordo e Pé na Cova).

A série Pé na Cova, aliás, pode ser considerada de certa forma um prenúncio de Veneza, com sua mistura de humor, afeto, surrealismo e melancolia. “O Pé na Cova sou eu, um homem de 50 anos que olha para a finitude. É uma coisa da maturidade. Acho que o Ruço, o protagonista que interpretei na série, é quem eu gostaria de ser. Um homem careta do subúrbio que aceitava aquele bando de loucos porque costurava tudo com amor. O Ruço é o meu objetivo de vida como ser humano.”

Comédia da tolerância

Falabella faz então uma pausa reflexiva e relembra a amiga, parceira e ídolo Marília Pêra (1943-2015), que interpretou Darlene, a ex-mulher alcoólatra de Ruço, em seu último trabalho na TV. “Marília, tão maravilhosa, que categoria.” E a pausa vira silêncio, enquanto ele passa a mão na cabeça careca e olha para o infinito da janela de sua sala. Mas o silêncio não dura muito, afinal o show tem que continuar.

“Do mesmo jeito que tratei aquela gente perdida de Pé na Cova, olho para as prostitutas de Veneza de uma forma muito especial. Poderia olhá-las de uma maneira crua, mas prefiro investi-las de grandeza. Sempre quis fazer uma ‘comédia da tolerância’, onde todos são bem vindos. Uma vez, um porteiro da Globo me falou uma coisa que tomei como grande elogio: ‘Seu Falabella, sempre que aparece alguém muito esquisito, eu sei que é para um programa seu’. Fiquei muito orgulhoso com esse comentário, porque quando você tem efetivamente afeto
pelas pessoas, o público reconhece.”

E esse reconhecimento é um dos maiores estímulos de Falabella, que, desde que se entende como artista, sempre quis ser popular. “Fui criado numa família meio careta de intelectuais, uma gente bem elitista. Minha mãe era discípula de Sartre e minha casa era frequentada por intelectuais. Desde muito novo, eu percebia esse abismo entre a minha casa e o resto do mundo. Então decidi ser um artista popular. Só que comecei a dirigir teatro com Emily [sobre a poetisa Emily Dickinson, em 1984], ganhei prêmios e prestígio, e o pessoal não me perdoou porque fui fazer besteirol. ‘Como ele larga a grande arte do teatro para fazer isso?’”

Ainda hoje, Falabella diz sentir preconceito por fazer sucesso, por ser popular, mas faz tempo que deixou de se importar. “Estou numa fase bacana. Menos angústia, menos insônia. O que virá, virá. Eu vou semeando, algumas sementes germinam, outras não, e tudo bem.” Enquanto trabalha em uma nova série para a TV e sonha com seu terceiro longa, reservou 2019 para levar Veneza a festivais de cinema mundo afora. Afinal, a Veneza dos sonhos da Gringa é também de Falabella e de quem mais embarcar nessa viagem fantástica.

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