ENTRETENIMENTO

Terra Dourada

Mianmar se mantém como um país único, onde é possível admirar templos de ouro, meditar com monges budistas ou simplesmente apreciar um lugar onde o tempo parou.

Há quem nunca tenha ouvido falar de Mianmar. O país, que até há pouco tempo era conhecido como Birmânia e teve o nome alterado na década de 1980, é ainda uma incógnita para boa parte das pessoas. Isolado do resto do mundo desde 1962, quando uma cúpula militar tomou o poder, Mianmar se mantém igual há 50 anos e não faz questão de mudar – nem de receber visitantes. Não existem pacotes turísticos para lá. Cada turista deve traçar sua rota e seu destino, sabendo que o simples fato de estar nesse país mágico é um grande privilégio.

Desde que a ditadura militar passou a governar o país, Mianmar mudou muito pouco. Isso explica a sensação que se tem ao chegar à maior nação do Sudeste Asiático, com quase 50 milhões de habitantes: a de ter entrado em um túnel do tempo, diretamente para 50 anos atrás. Os carros são antigos, os homens usam saiotes, as mulheres se maquiam com extratos de raízes de árvores, os monges são mais cultuados que celebridades e há uma inocência – há muito tempo perdida na sociedade ocidental – no ar. O governo e suas restrições sempre estão por perto, mas nem por isso a felicidade de ter a chance de conhecer esse paraíso escondido é menor.

Os cabelos de Buda

Como a única forma de entrar e sair de Mianmar é de avião, é bem provável que sua viagem comece – e termine na antiga capital, Yangon. A maior cidade do país oferece um ótimo primeiro contato com esse novo universo, com a mistura entre o novo e o tradicional. Jovens de calças jeans caminham ao lado de monges vestindo mantos vermelhos, e novos estabelecimentos comerciais rodeiam os seculares monumentos cobertos de camadas e mais camadas de ouro.

Antes de visitar os impressionantes templos de Yangon, vale a pena entender como tudo começou. Construções como a imponente Shwedagon Paya, cuja tradição diz ter mais de 30 toneladas de ouro em seu interior, foram levantadas não apenas para cultuar Buda e seus ensinamentos, mas também para proteger alguns fios de seu cabelo, que teriam chegado à região há milhares de anos. Reza a lenda que dois comerciantes birmaneses encontraram Buda pessoalmente e que ele deu aos dois irmãos oito fios de cabelo para serem levados a Mianmar. A encomenda primeiro chegou à região de Yangon, depois foi separada e teve diferentes destinos.

Um desses fios está bem protegido dentro da maior estupa – monumento religioso budista – de Shwedagon, com 98 metros de altura e várias toneladas de ouro. Essa “torre” dourada impressiona pelo tamanho e pela beleza. Monumento religioso de maior devoção no país, o templo pode ser visto de qualquer ponto de Yangon. Outro fio de cabelo de Buda está exposto no espelhado templo Botataung Paya, na região central de Yangon. Diversas redomas de vidro protegem a preciosidade.

As estupas douradas, todas com toneladas de ouro em seu interior, estão presentes não somente em Yangon, mas em toda a região. Na cidade de Bago, nos arredores da antiga capital, é possível encontrar, além de imensos templos dourados, dezenas de imagens de Buda em todos os tamanhos e posições, monastérios budistas e o caminho para a pedra mais misteriosa do país: a Golden Rock, uma grande rocha coberta com folhas de ouro prestes a despencar montanha abaixo, mas que se mantém firme e forte há séculos por causa – adivinhe? – de um dos lendários fios de cabelo de Buda. Independentemente do que faz a grande rocha desafiar a gravidade e se equilibrar no limite do abismo, o exotismo e a beleza da paisagem fazem da visita à Golden Rock uma experiência impressionante.

Estrada para Mandalay

Rumo ao norte do país, a caminho de Mandalay, segunda maior cidade de Mianmar, a estrada leva o visitante às montanhas birmanesas, território da etnia Shan, onde o calor é mais ameno e a paisagem é tomada pelo segundo maior lago do país, o Lago Inle. Aqui, o visitante se depara com um universo à parte. À beira do lago está Nyaung Shwe, uma cidade tranquila, com diversos templos e monastérios budistas, que ditam o ritmo lento da região. Dentro do lago, há uma outra cidade, levantada sobre palafitas, praticamente flutuando sobre Inle.

Nessa Veneza asiática, há casas, lojas, ruas, plantações, restaurantes, hotéis e templos, tudo sobre a água. O Inle também guarda particularidades em seu interior, como os pescadores que, em pé, guiam o barco com uma perna e usam a outra para remar, e as incríveis tecelagens artesanais, as únicas do mundo a produzir um tecido cuja linha é extraída da fibra da planta de lótus. Os templos budistas dentro do lago são lugares de peregrinação entre os birmaneses, especialmente o Phaung Daw Oo, onde cinco estátuas de Buda já se transformaram em cinco bolas de ouro devido aos anos de devoção e às inúmeras folhas de ouro coladas em cada uma.

Os muitos rios e montanhas existentes na parte nordeste de Mianmar fazem dela destino perfeito para os aventureiros que buscam conhecer o lado menos explorado e habitado dessa parte do Sudeste Asiático. Para os demais visitantes, Mandalay, a última capital real do país, está próxima e abriga belos palácios e templos.

Embora seja a segunda maior cidade do país, Mandalay é bem diferente de Yangon. Com atmosfera mais descontraída, população culta, gentil e hospitaleira, assim como o maior contingente de monges e dezenas de impressionantes templos e monastérios, a cidade tem uma beleza rara.

Um simples passeio por suas ruas planas resulta em agradáveis conversas com a população local e em convites para um copo de chá ou uma partida de chinlone – espécie de futebol jogado com uma pequena bola de bambu. Diante desse clima hospitaleiro, caminhar até o antigo palácio real, os famosos templos da cidade ou o topo da Mandalay Hill, montanha que oferece vista privilegiada para toda a região, fica ainda mais atraente.

Planície sagrada

A alguns quilômetros ao sul de Mandalay, na região central de Mianmar, está o cenário mais incrível de todo o país: Bagan. Com mais de 3 mil estupas concentradas em uma planície de 42 km, parece uma miragem quando vista de um ponto mais elevado.

A história dessa planície data de mil anos atrás. A maior parte de seus templos foi construída entre os séculos 11 e 13, na época em que Bagan era a capital de quase todo o Sudeste Asiático. De lá para cá, ela deixou de ser a capital da região e de Mianmar, mas as estupas continuaram a ser erguidas em seu território. Hoje, é possível ver templos milenares em ruínas e outros recém-construídos lado a lado. Mais que uma paisagem de encher os olhos, a cidade oferece ao visitante uma rara oportunidade: a de caminhar em seu próprio passo, sem se preocupar com multidões de turistas ou com vendedores de suvenires. Por isso, a sensação de estar ali é a de ser um explorador que acaba de entrar em um novo mundo.

Por ser tão impressionante e ao mesmo tempo pouco explorada, Bagan é uma das maravilhas do mundo que mais preservam suas características originais, com templos abertos à visitação e a mesma aura de paz e silêncio que envolveu esse local nos últimos séculos. Mais que uma das maiores atrações do país, é ainda uma cidade religiosa, de adoração e devoção para grande parte dos birmaneses.

A impressão que se tem ao viajar por Mianmar é de estar em um país autêntico, que não se rendeu ao turismo e se manteve como era há décadas. Talvez seja por isso que, depois de conhecê-lo, a sensação é a de ter desfrutado de um privilégio, não só por ter encontrado as melhores e mais amáveis pessoas do mundo, mas também por ter visto um país de personalidade própria, que, apesar de seus problemas, consegue ser um dos melhores destinos para quem é apaixonado por viagens.

 

Informações úteis

Quando ir: a melhor época para visitar Mianmar é entre novembro e fevereiro, quando as chuvas são raras, e as temperaturas, mais amenas.

Como chegar e visto: como não há voos diretos para Mianmar, a melhor maneira de chegar ao país é ir até a capital tailandesa, Bangkok, e lá tirar o visto, que fica pronto em um dia. Depois, bastar pegar um rápido voo até Yangon.

Dinheiro: Mianmar sofre com um embargo econômico dos Estados Unidos desde 1997. Para o viajante, isso significa que cartões de crédito não são aceitos e não há caixas eletrônicos. Levar dólares, que podem ser facilmente trocados nas grandes cidades, é a melhor solução.

Onde ficar: há diversas opções de hotéis em Mianmar. A recomendação é evitar os do governo, para minimizar o dinheiro destinado à ditadura birmanesa.

Texto e fotos Arthur Simões

Privacy Settings
We use cookies to enhance your experience while using our website. If you are using our Services via a browser you can restrict, block or remove cookies through your web browser settings. We also use content and scripts from third parties that may use tracking technologies. You can selectively provide your consent below to allow such third party embeds. For complete information about the cookies we use, data we collect and how we process them, please check our Privacy Policy
Youtube
Consent to display content from Youtube
Vimeo
Consent to display content from Vimeo
Google Maps
Consent to display content from Google
Spotify
Consent to display content from Spotify
Sound Cloud
Consent to display content from Sound