ENTRETENIMENTO

Tesouros (quase) escondidos

Nem sempre citadas nos guias de viagem e distantes do Frenesi das mais famosas atrações turísticas, as bibliotecas encantam por sua arquitetura e pelas raridades que guardam.

Bibliothèque, bibliotek, bibliotheek, bibliyotèk, bibliotēka, biblioteka, bibliotecă. Mudam os acentos ou algumas letras, mas, em muitos países do mundo, a palavra “biblioteca” é escrita praticamente da mesma maneira. Originário do grego βιβλιοθήκη, o termo significa “o local onde são guardados livros”. Na antiguidade eram lugares com acesso restrito, pois nelas ficavam pergaminhos, papiros e documentos de fundamental importância para as sociedades da época. Foi só com a construção da Biblioteca de Alexandria, no Egito, por volta de 280 a.C., sob o reinado de Ptolomeu II, que essas instituições tornaram-se templos abertos do conhecimento. Por séculos, a grandiosidade da Biblioteca de Alexandria foi comentada nos cinco continentes.

Hoje as bibliotecas não conseguem competir com atrações como a Torre Eiffel ou a Estátua da Liberdade. Talvez até por certo desconhecimento dos viajantes. É uma pena, pois visitá-las pode ser a parte mais emocionante do passeio em muitas cidades. Para começar, não é preciso se preocupar com grandes filas ou compra de ingressos antecipados. Além disso, a maioria tem entrada gratuita. Mas é bom estar preparado: as lembranças devem ficar apenas na memória, porque dificilmente é permitido o uso de câmeras fotográficas no interior desses edifícios.

Desde os tempos medievais

Não é surpresa descobrir que algumas das mais belas bibliotecas do mundo ficam em abadias, monastérios e conventos. Afinal, sobretudo na Idade Média, os religiosos controlavam a produção e a distribuição de conhecimento, a cultura e as descobertas científicas – até por uma estratégia de perpetuação do poder, o qual, aliás, estava diretamente associado à ostentação.

Um exemplo muito característico dessa combinação pode ser visto no Mosteiro de Wiblingen, no extremo sul da Alemanha, na região da Floresta Negra. Ali está localizada uma das mais impressionantes bibliotecas já construídas em estilo rococó. Colunas e teto são adornados com estátuas de deuses gregos. Os afrescos esbanjam cor. Em Wiblingen, os deuses foram retratados como guardiões dos “tesouros da sabedoria e da ciência”.
A arquitetura rococó, aliás, floresceu nessa região da Alemanha e na vizinha Áustria. A intenção era reproduzir os gostos e o estilo de vida da corte e elite francesas de Paris e Versalhes.


Um exemplo muito característico dessa combinação pode ser visto no Mosteiro de Wiblingen, no extremo sul da Alemanha, na região da Floresta Negra. Ali está localizada uma das mais impressionantes bibliotecas já construídas em estilo rococó. Colunas e teto são adornados com estátuas de deuses gregos. Os afrescos esbanjam cor. Em Wiblingen, os deuses foram retratados como guardiões dos “tesouros da sabedoria e da ciência”.
A arquitetura rococó, aliás, floresceu nessa região da Alemanha e na vizinha Áustria. A intenção era reproduzir os gostos e o estilo de vida da corte e elite francesas de Paris e Versalhes.

Sanatório da alma

Próximo dali, no noroeste da Suíça, está outro exemplo impressionante. Mais antiga do país, a Biblioteca da Abadia de Saint Gallen fica a cerca de uma hora de carro de Zurique. Foi construída em um mosteiro do século VII que chegou a ser um dos mais importantes da Europa. Hoje todo o complexo é considerado Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Aberta ao público, a biblioteca guarda aproximadamente 170 mil obras, entre livros, manuscritos, documentos e outras formas de registro histórico. Livros produzidos a partir de 1900 podem ser emprestados ao público. Já os volumes mais antigos devem ser apenas manuseados no local, mediante autorização.

Visitar a biblioteca suíça é como voltar ao passado. Acima da porta principal está a frase em grego ΨΥXHΣ IATPEION, que significa “farmácia (ou sanatório) da alma” . De pantufas nos pés, sobre o chão de madeira cuidadosamente talhado, o visitante adentra o salão barroco repleto de obras, muitas delas escritas com a caligrafia rebuscada do alemão antigo. Ao fechar os olhos, dá para imaginar os monges estudando séculos atrás. Quatrocentos dos volumes expostos datam de antes do ano 1000. Os afrescos do teto e o trabalho em estuque retratam os quatro primeiros concílios da Igreja. É curioso constatar que a Suíça, um país predominantemente protestante, tenha uma das primeiras e mais importantes bibliotecas monásticas do mundo.

Um dos detalhes interessantes da biblioteca de Saint Gallen é uma réplica de um globo terrestre de 1571. Através dele é possível ter uma ideia de como nossos antepassados acreditavam ser o mundo. No Brasil, aparecem a Bahia de Salvador e lugares como Abrolhos (Abrojos) e Fernando de Noronha (Lorona).

De Coimbra ao Rio

Centro de efervescência cultural e da produção de conhecimento por muitos séculos, a Europa reúne outras bibliotecas que merecem ser conhecidas. Em Portugal, há várias. Construída entre 1717 e 1728, na Universidade de Coimbra, a Biblioteca Joanina recebeu esse nome em homenagem a Dom João V, retratado em um enorme quadro no salão principal. O rei foi o responsável por patrocinar a construção do complexo.

Feita de madeira, a Joanina é um dos expoentes do barroco português. O ouro usado para decorar os ambientes foi trazido diretamente do Brasil colonial. Por sua beleza, concertos e exposições são realizados ali com frequência. Em 2015, foi incluída na lista das bibliotecas mais espetaculares do mundo pelo jornal britânico The Telegraph.


Foi com o mesmo esmero da terra natal que os portugueses criaram o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Escondido no centro velho da cidade, mais exata – mente na Rua Luís de Camões, é uma joia sem igual. Fundada em 1837, a instituição completa 180 anos em maio de 2017.
É difícil saber o que mais impressiona na biblioteca. Afinal, a grandiosidade e a imponência da construção, o acervo precioso, o lindíssimo lustre que se destaca no salão de leitura, as estantes que rodeiam o complexo e o vitral colorido no teto formam uma obra completa, que maravilha os visitantes. Entre os 350 mil volumes guardados ali, há muitas raridades, como uma edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, de 1572.

Ainda na capital fluminense, a Biblioteca Nacional tam – bém vale uma incursão. O edifício, na Avenida Rio Branco, foi restaurado recentemente. Inaugurado em 1810, o prédio mistura os estilos neoclássico e art nouveau e foi projetado para abrigar 1,5 milhão de livros. Mais antiga instituição cul – tural brasileira, a Biblioteca Nacional é considerada pela Unesco uma das principais bibliotecas nacionais do mundo.

Escadarias trabalhadas levam os visitantes ao primeiro andar. Do vitral no centro do teto, a luz natural ilumina todo o hall de entrada. A visita à sala de leitura só é permitida no tour guiado, disponível de segunda à sexta-feira, em inglês e português. Entre as raridades mantidas ali são a partitura original da ópera O Guarani, de Carlos Gomes, a primeira edição de Arte da Gramática da Língua Portuguesa, escrita pelo padre José de Anchieta em 1595, e gravuras raras de ar – tistas como Rembrandt e Goya.

História em volumes

Assim como grande parte da trajetória do Brasil está registrada nos arquivos da biblioteca do Rio de Janeiro, a Biblioteca do Congresso, em Washington, guarda momentos decisivos da história dos Estados Unidos. A belíssima construção, localizada exatamente ao lado do parlamento norte-americano, o Capitólio, abriu as portas em 1897. Atualmente é tida como a maior do mundo. Os números são grandiosos: 150 milhões de itens, entre materiais impressos em 460 idiomas diferentes, 69 milhões de manuscritos e a maior coleção de livros raros da América do Norte. Colunas e escadarias de mármore italiano branco adornam o pavilhão de entrada. O domo, pintado com ouro, foi considerado “de custo exorbitante” na época da inauguração. Mais de 40 escultores e pintores foram contratados para produzir as obras de arte que compõem o espaço. O objetivo era provar que os Estados Unidos poderiam ter um templo do conhecimento nos mesmos moldes dos europeus.


Por todo lado, há referências a alguns dos maiores pensadores e autores da história: Dante, Homero, Milton, Bacon, Aristóteles, Goethe, Shakespeare e Molière têm seus nomes impressos nas paredes da biblioteca. Vale a pena parar para ler e refletir sobre as inscrições que decoram o segundo andar: “A base de qualquer estado é a educação de seus jovens” ou “Glória é conquistada pela virtude, mas preservada pelas palavras”.


Entre os destaques da Biblioteca do Congresso está, logo no primeiro andar, uma Bíblia de Gutenberg, impressa provavelmente na Alemanha por volta de 1455. No piso superior, em uma das galerias, uma coleção com livros consagrados da literatura norte-americana: O Gato de Chapéu (Dr. Seuss), As Aventuras de Huckleberry Finn (Mark Twain), E o Vento Levou (Margaret Mitchell), Por Quem os Sinos Dobram (Ernest Hemingway) e A Sangue Frio (Truman Capote), entre outros.
Nova York também tem sua grande biblioteca. Menos formal que a da capital, a Biblioteca Pública de Nova York ocupa um quarteirão enorme em Manhattan, entre a 5th Avenue e a 42nd Street. A instituição tem um arquivo surpreendente de livros, discos, mapas, além de sediar exposições, conversas com autores e promover exibições de filmes, entre outros eventos. Turistas têm acesso a algumas salas de leitura, onde conseguem ter uma noção da beleza e importância da biblioteca não somente para a população da cidade, mas também para a preservação da cultura em seu país.

Acervo da elite

Tal qual os religiosos, a elite também tinha interesse em demonstrar seu apreço pelo conhecimento, motivo pelo qual há muitas bibliotecas particulares no continente europeu. No Castelo de Chantilly, no norte da França, está uma delas. A construção foi erguida por ordem de Henrique de Orléans (1822-1897), filho do último rei francês, Luís Filipe I (1773-1850). Na imensa propriedade, que também sedia a segunda maior coleção de pinturas antigas do país, atrás somente do Museu do Louvre, há um impecável salão de leitura. Apaixonado por arte e livros, o Duque de Aumale (título de Henrique de Orléans na corte) começou sua coleção a partir de 1848. Comprava muitas obras em leilões. Do total de 60 mil volumes da propriedade, 19 mil estão no salão de leitura. Destes, 1.500 são manuscritos do período iluminista, fazendo de Chantilly a segunda maior biblioteca da França sobre o assunto.

Arquitetura vanguardista

Apesar de as mais conhecidas e importantes bibliotecas do mundo terem história e arquitetura seculares, muitas têm investido, nas últimas décadas, em construções mais arrojadas e contemporâneas. Na Universidade Yale, em Connecticut (EUA), a Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos é um bom exemplo dessa tendência. Projetado pelo arquiteto norte-americano Gordon Bunshaft, que em 1988 recebeu o Prêmio Pritzker junto com Oscar Niemeyer, o complexo foi inaugurado em 1963.

Depois de passar por uma restauração que levou um ano e meio, a instituição reabriu em setembro seu salão de leitura aos estudantes. O interior do complexo é clean, minimalista e sem rebuscamento. Os livros estão distribuídos por seis andares envidraçados. No exterior, a fachada quadrada exibe grandes painéis de granito e mármore.
A Universidade de Chicago também apostou em um design moderno para a Biblioteca Joe e Rika Mansueto. A construção, finalizada em 2011, exigiu alta tecnologia para que os 3,5 milhões de volumes do acervo pudessem ser acessados digitalmente. O sistema subterrâneo para armazenamento dos volumes é simplesmente impressionante. O processo foi concebido para levar cinco minutos entre o pedido online de qualquer livro a partir do campus e sua retirada na biblioteca. Com seu domo elíptico de vidro e aço, o prédio já recebeu diversos prêmios de arquitetura.

Do outro lado do país, no estado de Utah, a Biblioteca Pública de Salt Lake City, inaugurada em 2003, é obra do renomado arquiteto israelo-americano Moshe Safdie. Os seis andares da construção têm corredores e janelas de vidro, que facilitam a entrada de luz natural. Ao longo deles, várias lareiras aquecem os ambientes nos meses de inverno. No verão, leitores e visitantes podem passear pelo jardim no telhado da biblioteca e passar boas horas de descanso em meio à natureza e a raridades da literatura.
Entre construções seculares e futuristas, a lista de bibliotecas que surpreendem pela forma e pelo conteúdo poderia ser muito maior. Depois desse passeio por algumas delas, que tal aprofundar a pesquisa e incluir algumas no roteiro de sua próxima viagem?

Serviços

  • Biblioteca Beinecke de Livros Raros e Manuscritos (EUA) – beinecke.library.yale.edu
  • Biblioteca da Abadia de Saint Gallen (Suíça) stibi.ch
  • Biblioteca do Congresso (EUA) loc.gov
  • Biblioteca Joanina (Portugal) uc.pt/informacaopara/visit/paco/ biblioteca
  • Biblioteca Nacional (Brasil) www.bn.br
  • Biblioteca Pública de Nova York (EUA) nypl.org
  • Biblioteca Pública de Salt Lake City (EUA) slcpl.lib.ut.us
  • Castelo de Chantilly (França) domainedechantilly.com/en/
  • Mosteiro de Wiblingen (Alemanha) kloster-wiblingen.de
  • Real Gabinete Português de Leitura (Brasil) realgabinete.com.br

Texto Suzana Camargo

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