ENTRETENIMENTO

Vida na estrada

O jornalista e fotógrafo Arthur Simões relata como foi deixar tudo para trás e pedalar quase 100 quilômetros todos os dias por mais de três anos para dar a volta ao mundo de bicicleta.

 

Tinha acabado de me formar em direito quando resolvi dar a volta ao mundo de bicicleta. A decisão contrariava tudo o esperavam de mim. A volta ao mundo não era como as outras viagens que havia feito, das quais sempre voltava para a minha rotina. Ela pedia que eu abrisse mão de tudo, para voltar para casa apenas anos depois.

Não bastava somente uma boa dose de desapego para abandonar uma profissão e um relacionamento. A viagem também pedia razoável preparo físico, muito planejamento, refinada logística, estrutura emocional e mental para aguentar tanto tempo sozinho, conhecimento da mecânica da bicicleta, quase todas as vacinas da medicina, patrocinadores dispostos a financiar a viagem e, acima de tudo, tempo, muito tempo. E foi justamente este ponto que transformou a jornada em algo mais que uma viagem, em um estilo de vida.

O caminho até o fim da aventura foi sinuoso. Mas voltei para casa 3 anos e 2 meses depois com a missão cumprida. No total, passei por 46 países, em 5 continentes, rodei quase 40 mil quilômetros carregando cerca de 30 quilos de equipamento. Usei 15 pneus, 9 correntes e incontáveis câmaras de ar. Visitei centenas de cidades, dormi em quase 500 delas, onde conheci e me despedi de milhares de pessoas, sofri 2 acidentes, passei alguns dias no hospital e, mesmo assim, faria tudo de novo, sem pensar duas vezes.

 

Do papel para o asfalto

Tirar um projeto deste porte do papel foi um grande desafio. Sem tempo e dinheiro suficientes, a viagem poderia começar, mas dificilmente seria concluída. Para o tempo, foi necessário desapego. Já para o dinheiro, patrocinadores, alguns deles, na verdade. Passada a fase de planejamento, que durou quase um ano, a viagem finalmente começou a sair do papel.

Montar e equipar a bicicleta exigiu atenção especial. Era preciso investir o suficiente para garantir que ela não me deixaria na mão. Esse pensamento se aplicava não só à bicicleta, mas
também à barraca, ao saco de dormir, ao fogareiro, ao isolante térmico, à câmera fotográfica, ao computador, aos alforjes (bolsas presas na lateral da bicicleta) e às roupas. Tudo tinha de ser cuidadosamente escolhido, não apenas para durar muito, mas, principalmente, para funcionar bem e sem complicação.

Outro ponto importante foi estabelecer o roteiro. Ele definiria as distâncias, a duração e o custo da viagem. Com o roteiro bem estruturado, foi possível estudar melhor cada país do percurso, me aprofundar na cultura, nas tradições e atrações de cada lugar, bem como descobrir informações importantes, como a necessidade de vistos e vacinas ou mesmo uma zona de conflito em meu caminho.

 

Sem raízes

Pedalando uma média de 100 quilômetros por dia, dificilmente eu ficava mais de um mês em um mesmo país. Quase todos os dias, chegava a um lugar diferente, e isso resultava em um ritmo intenso de mudanças. Era impossível criar raízes. Quando começava a me acostumar com
uma cultura ou mesmo a falar um novo idioma, o que me abria muitas portas, já era hora de ir embora e começar tudo de novo, em outro país.

Assim, me acostumei a chegar a novos lugares rapidamente e a deixá-los para trás na mesma velocidade. Por ser longa, a empreitada pedia, acima de tudo, disciplina e foco. Devia estar focado na direção que tinha de seguir e ter disciplina para pedalar praticamente todos os dias. Só assim, com a soma de pequenas distâncias percorridas na direção certa, seria possível avançar rumo a um objetivo tão distante.

Foram justamente foco e disciplina que me ajudavam a manter a calma em trechos mais difíceis, como nas travessias dos desertos do Atacama, no Chile, e do Saara, no norte da África. Passava dias sem falar nem ver ninguém e tinha de levar água e comida suficientes. O que me tranquilizava era a certeza de que bastava seguir em frente, pedalando na direção certa, que o isolamento e o deserto teriam fim. Mais que desafiadores, esses momentos foram grandes lições de vida.

Enquanto viajava, sentia que a expressão mundo pequeno não se aplicava em nada à minha experiência. O mundo era grande e a cada quilômetro percebia que ele era maior do que eu pensava. Sem vidros ou proteção para me separar do que estava à minha volta, a bicicleta me deixava não só ver de perto cada lugar, mas também experimentar e mergulhar em cada cultura. Abarrotada de mantimentos, ela chamava a atenção das pessoas. Frequentemente, eu era convidado a me hospedar na casa de algum morador local.

Mesmo nos lugares menos prováveis, como Paquistão, Irã e Iêmen, fui surpreendido com a hospitalidade e pude fazer parte da rotina das pessoas por alguns dias. Vivências que dificilmente aconteceriam sem a bicicleta. Ela me ajudou a conhecer um mundo diferente daquele que via nos noticiários. Através da vida em constante movimento, conheci incontáveis culturas e tradições, passei por caminhos sinuosos e imprevisíveis, mas, acima de tudo, descobri diversos mundos, cada qual com sua beleza e seu encanto particular.

 

A aventura em números

  • ANO de planejamento
  • 3 ANOS e 2 MESES de viagem
  • 30 QUILOS de bagagem
  • 15 PNEUS de bicicleta
  • 2 ACIDENTES
  • 46 PAÍSES visitados
  • 5 CONTINENTES desbravados
  • 500 CIDADES conhecidas
  • 40 MIL quilômetros percorridos
  • 100 quilômetros DE PEDALADAS diárias
  • 40 MIL FOTOS NA BAGAGEM, que deram origem ao livro O Mundo ao Lado (ed. Disal) e várias exposições e palestras

Texto e fotos Arthur Simões

 

Privacy Settings
We use cookies to enhance your experience while using our website. If you are using our Services via a browser you can restrict, block or remove cookies through your web browser settings. We also use content and scripts from third parties that may use tracking technologies. You can selectively provide your consent below to allow such third party embeds. For complete information about the cookies we use, data we collect and how we process them, please check our Privacy Policy
Youtube
Consent to display content from Youtube
Vimeo
Consent to display content from Vimeo
Google Maps
Consent to display content from Google
Spotify
Consent to display content from Spotify
Sound Cloud
Consent to display content from Sound