ENTRETENIMENTO

Caminhos do Velho Chico

Pouco antes do encontro com o mar, o rio São Francisco revela seus maiores segredos: dunas, cânions, igrejas coloniais e histórias de cangaceiros.

Da nascente na Serra da Canastra, em Minas Gerais, até desaguar no Atlântico, o Rio São Francisco percorre cerca de três mil quilômetros. Ao longo desse caminho, o mais brasileiro dos rios atravessa o sertão nordestino e provê as populações com água, alimento e até energia elétrica. Mas é no trecho final dessa grande trajetória, na divisa entre Sergipe e Alagoas, que o Velho Chico revela seus mais belos cenários. Suas águas verdes invadem cânions e guardam histórias de cangaceiros na região de Piranhas, contornam igrejas coloniais e casarões centenários na cidade histórica de Penedo, até finalmente bater em uma praia selvagem ao lado de um mundo de dunas na foz, em Piaçabuçu, a 140 quilômetros de Maceió. Conhecido como Caminhos do São Francisco, o roteiro segue do litoral ao sertão e vem despontando como um novo (e sensacional) destino de ecoturismo no Nordeste.

O velho e o mar

Por causa da proximidade com Maceió, a viagem pelos Caminhos do São Francisco costuma começar pela foz do rio, que, em seus últimos quilômetros, abre-se feito um leque, formando um delta, com
ilhas e manguezais. No encontro com o mar, uma praia extensa forrada com altas dunas estende-se por cerca de 20 quilômetros. É uma das maiores praias selvagens do Nordeste e um dos trechos mais cinematográficos do percurso. Ali, já foram gravados diversos filmes, entre eles Deus é Brasileiro (2003), de Cacá Diegues, com Wagner Moura e Antônio Fagundes.

Para chegar a esses cenários, é preciso ir até a pequena cidade de Piaçabuçu, de onde partem barcos, grandes e pequenos, em passeios pelo delta do rio. O próprio caminho até lá, saindo de Maceió pela rodovia AL-101, é uma experiência marcante. A estrada segue próxima à costa e exibe alguns belos mirantes pelo caminho, especialmente na Praia do Gunga.

Piaçabuçu, a 13 quilômetros da foz, é pequena, tem um pouco mais de 20 mil habitantes e muitas canoas de pesca ancoradas na margem do rio. Além de provar a moqueca de peixe com pirão do restaurante Santiago e a cachaça de cambuí, bebida típica local, não há muito o que fazer na modesta cidade, onde as mulheres ainda lavam roupa na beira do rio e a molecada brinca de dar saltos mortais do trapiche de madeira dos barcos de pesca. O negócio ali é embarcar logo nas lanchas e traineiras que levam ao exato ponto onde o São Francisco encontra o mar. O passeio dura entre duas e três horas, com uma parada para banho no rio.

Com a agência Farol da Foz, é possível estender o passeio. Neste caso, os visitantes deixam o barco e seguem de bugue pelas dunas, parando para brincar de esquibunda e conhecer o vilarejo quilombola de Pixaim, cujas primeiras taperas de palha em meio ao areal foram erguidas por escravos fugidos de fazendas no século 19. Ainda hoje, algumas famílias vivem no local quase como antigamente, sem luz elétrica nem água encanada.

Há cerca de 60 anos, a areia das dunas engoliu outro povoado que existia próximo à foz, o Pontal da Barra. Muitos moradores de Piaçabuçu viveram no extinto povoado e têm com saudade daquele tempo. “Era um povoado grande, tinha igreja e até telefone”, lembra a simpática Dona Maria, cujos olhos se enchem de lágrimas ao falar da infância na foz do rio. “As dunas eram a coisa mais linda do mundo. Dormia com minhas irmãs no meio da duna só para ficar olhando o céu estrelado. É uma saudade tão grande.”

A foz, no entanto, não tem a mesma opulência dos tempos em que Dona Maria passava noites ao luar. No embate com o mar, o rio vem perdendo a disputa. O Velho Chico minguou consideravelmente nos últimos 20 anos, devido ao processo avançado de assoreamento e à construção de usinas hidrelétricas. O rio que simbolizava a integração nacional já não tem a mesma força.

A antiga desembocadura do rio, que chegou a ter dezenas de metros de profundidade, por onde navegavam cargueiros transportando mercadorias do interior para outros pontos do litoral do Nordeste, tem atualmente
profundidade média de 4 metros, suficiente apenas para as traineiras de pesca.

Se há um século o rio tinha força para avançar sobre o oceano, hoje a situação se inverteu. “Em dias de maré grande [lua cheia], o mar invade o leito do rio de tal forma que já se pesca xaréu [peixe de água salgada] para os lados de Traipu (a cerca de 140 quilômetros da foz)”, diz o pescador João Fernandes. Estudiosos chamam o fenômeno de salinização do rio.

História em Penedo

Os encantos do Rio São Francisco seguem rumo ao interior. A 30 quilômetros de Piaçabuçu, ou a 20 minutos de carro, fica Penedo, uma cidade histórica erguida por bandeirantes no século 16. Penedo foi um importante entreposto comercial e fez riqueza com a cana-de açúcar. Seu conjunto arquitetônico barroco, com quatro ricas igrejas erguidas no século 17, conventos e sobrados, rendeu-lhe o apelido de Ouro Preto do Nordeste. Atualmente, a cidade tem cerca de 60 mil habitantes e muitos bairros, mas seu atrativo principal concentra-se à beira-rio, onde a cidade preserva o ar de nobreza herdado dos tempos de opulência.

Um passeio por Penedo não leva mais do que uma tarde, tempo suficiente para visitar seus principais pontos de interesse e ainda curtir um final de tarde à margem do Velho Chico, onde é possível observar os barcos-gaiolas transportando passageiros para o outro lado, no município vizinho, Santana do São Francisco.

Conhecer Penedo implica entrar em suas igrejas. A de Nossa Senhora da Corrente e a de Santa Maria dos Anjos são as mais bonitas, com
altares de estilo barroco e rococó folheados a ouro. No Paço Imperial, o antigo sobrado da família Lemos, que em 185 9 abrigou o imperador D. Pedro II, foi transformado em museu e guarda objetos e mobiliário da época. O mais curioso deles é um exemplar original da primeira página do jornal Diário Popular, de 13 de maio de 1888, com a manchete: “Lei Áurea”.

Outro monumento marcante é o Teatro Sete de Setembro, fundado em 1884, mais uma prova da glória que Penedo viveu em outros tempos. Foi o primeiro teatro construído em Alagoas e segue em funcionamento. A visita é guiada e gratuita. Na beira do rio, próximas ao porto, barracas exibem artigos do artesanato local. São jarros, potes, panelas e carrancas de cerâmica produzidas em olarias da região.

Há ainda opções interessantes para uma parada gastronômica. Uma delas é o restaurante Oratório, com mesas dispostas em um deque debruçado sobre as águas do rio. É um bom lugar para provar especialidades penedenses, como o jacaré ao molho de coco e a pituzada, moqueca feita com uma espécie de camarão graúdo de água doce. Outro restaurante com uma bela vista para o rio é o Maurício de Nassau, instalado em um casarão colonial, antiga Casa da Aposentadoria. Nos fundos, há um balcão com vista para o São Francisco.

O sertão virou mar

No interior de Alagoas, a 150 quilômetros da foz, o Rio São Francisco atravessa o sertão. Suas águas contornam terras poeirentas de onde brotam o xique-xique, o facheiro, a macambira e outras plantas da caatinga. O mais curioso é que, justamente nessa região de semiárido, o Velho Chico se mostra mais caudaloso, especialmente no trecho próximo à cidade de Piranhas, onde a barragem da Usina Hidrelétrica do Xingó criou um imenso lago de água verde-esmeralda. A construção da represa, em 1996, ocupou uma imensa área de caatinga, e as águas do São Francisco inundaram um conjunto de cânions de arenito com paredões de até 90 metros de altura. São os famosos Cânions do Xingó, que se transformaram no principal destino turístico do interior de Alagoas e de Sergipe, já que o rio é a divisa geográfica entre os dois estados.

Quem visita Piranhas (em Alagoas) ou a Canindé de São Francisco (na margem sergipana) só quer saber de passear nas escunas que navegam pelo majestoso corredor de águas verdes emoldurado por paredões avermelhados de arenito.

A maioria dos visitantes que vão ao Cânion do Xingó faz os passeios em grandes catamarãs, capazes de transportar até uma centena de pessoas. Uma alternativa mais privativa é o roteiro oferecido pela agência Candeeiros Ecotur, que leva grupos menores até o restaurante Show da Natureza, na beira do rio, a 28 quilômetros de Piranhas. Ali, começa uma caminhada pelo meio da caatinga, contornando a borda dos paredões do Cânion. A trilha leva a uma fenda estreita e inundada, para ser atravessada de canoa, e termina na mesma plataforma flutuante onde param os catamarãs. O passeio segue pelo Sítio Arqueológico, onde há pinturas
rupestres gravadas em um rochedo, e termina ao pôr do sol no mirante do Cânion Dourado.

A cidade de Piranhas é uma grata surpresa. Quem chega esperando encontrar um lugarejo simples no sertão alagoano encontra uma cidade histórica muito charmosa. Minúscula, é verdade, mas cheia de casarões centenários coloridos e igrejas despontando no cocuruto dos morros.

Piranhas foi fundada por imigrantes ingleses que trabalharam na construção da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, inaugurada em 1881 e desativada desde 1964. O centro histórico tem apenas duas ruas principais, que se juntam formando uma praça rodeada de barzinhos com mesas ao ar livre.

Memória do cangaço

Na antiga estação de trem de Piranhas funciona o Museu do Sertão. Entre outras peças do acervo, estão objetos pessoais de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. O rei do cangaço ajudou Piranhas a entrar para a história do Brasil em 1938. Naquele ano, o capitão Virgulino e seu temido bando de cangaceiros foram cercados e mortos pela polícia quando se escondiam na região. Os cangaceiros dormiam na Grota de Angicos, em Poço Redondo, na outra margem do rio, no lado sergipano, quando foram pegos de surpresa e executados. A maior parte do grupo conseguiu fugir ao ouvir os primeiros disparos, mas Lampião, Maria Bonita e outros nove cangaceiros foram atingidos e mortos ali mesmo.

Ainda hoje, Piranhas revive as histórias do cangaço. Exemplo disso são os garçons vestidos de cangaceiros nos bares da cidade. O passeio à Grota de Angicos é a melhor forma de conhecer o lendário Lampião e o curioso fenômeno social do cangaço no sertão brasileiro. Para chegar lá, segue-se de barco pelo Rio São Francisco até o restaurante Espaço Ecológico Angicos, onde começa a trilha de 700 metros em meio à caatinga. Os guias contam com enorme riqueza de detalhes como aconteceu a tocaia que pôs fim às aventuras do maior cangaceiro de todos os tempos. É emocionante e uma ótima oportunidade de conhecer as grandes histórias que marcam os caminhos do São Francisco.

SERVIÇO

Quando Ir

Qualquer época do ano é garantia de sol e calor em Alagoas.
A temporada de chuva vai de maio a agosto, mas as chuvas são
rápidas e o sol sempre reaparece depois de cada temporal. Em Piranhas, que fica no sertão alagoano, a chance de chover é menor ainda.

Como chegar

Piaçabuçu fica a 140 quilômetros de Maceió, seguindo pela AL-101, a estrada que margeia todo o litoral sul alagoano. De lá, são apenas 30 quilômetros até Penedo, que, por sua vez, fica a 210 quilômetros de
Piranhas. O caminho é pela AL-220, que passa por Arapiraca.

Onde Ficar

Na região de Piaçabuçu, a melhor opção é a pousada Chez Julie, na
praia do Pontal do Peba, um vilarejo de pescadores onde termina o trecho de dunas. Com uma área social bem agradável, foi adquirida pelo francês Vany Didier, que fez boas melhoras no paisagismo. Os quartos não são luxuosos, mas têm TV, frigobar e ar-condicionado. Oferece bom café da manhã. pousadachezjulie.com.br

Também é possível se hospedar em Penedo, que oferece mais alternativas de hospedagens. Veja algumas opções:

Hotel São Francisco É o maior da cidade. Tem 50 apartamentos, distribuídos em seis andares. Os quartos luxo têm varanda com rede e uma bela vista para o rio.hotelsaofrancisco.tur.br
Solar dos Rodrigues Os quartos são simples, mas o preço agrada e o atendimento é supersimpático. Os hóspedes chegam e logo viram amigos dos funcionários. O café da manhã é uma delícia, com tapioca, ovos, bolos e sucos naturais. Tel. (82) 98863-4943

Onde Comer

Em Piaçabuçu, prove a moqueca de peixe com pirão do restaurante Santiago (82) 3552-1208. Em Penedo, os mais típicos são o jacaré na brasa e a pituzada (feita com pitu, um tipo de camarão) do restaurante Oratório (82) 3551-2985, na beira do rio, ao lado do porto. No final de tarde, também vale a pena tomar uma cerveja gelada na varanda do restaurante Maurício de Nassau (82) 99624-8565, que fica em um casarão histórico e oferece uma linda vista para o Rio São Francisco. Em Piranhas, o restaurante Flor de Cactus (82) 98841-1532 fica no alto de um morro e tem mesas em um mirante com vista para a cidade. No cardápio, estão iguarias do sertão, como carneiro ensopado. Para algo mais leve, vá de moqueca de surubim.

Passeios

Em Piaçabuçu, a agência Farol da Foz (faroldafozecoturismo.com) oferece o passeio mais completo para a foz do São Francisco, com lancha e bugue. O passeio de bugue pode ser incrementado com um emocionante voo de parasail (um tipo de paraquedas puxado por uma lancha) na praia. Em Penedo, o city tour no centro histórico fica bem mais interessante na companhia de um guia experiente, como o Wanderley (82) 98841-7242. Em Olho d’Água do Casado, próximo a Piranhas, a agência Candeeiros Ecotur ((82) 98838-3509) oferece trilhas e passeios diferenciados para os Cânions do Xingó.

Texto e fotos Tales Azzi

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