INVESTIMENTOS

O coronavírus mudou o que é ser “conservador” ou “arrojado” nos investimentos?

Por Patrick Cruz

Todo investidor, iniciante ou experiente, sabe que, antes de decidir onde alocar seus recursos, o primeiro passo é identificar qual seu perfil. Essa “identidade” tem relação com a tolerância que a pessoa tem ao risco. Se ela perde o sono com variações muito bruscas dos preços dos ativos e prefere aplicações mais estáveis, ainda que de rentabilidade mais limitada, o perfil é de um investidor conservador. Já quem tolera grandes oscilações em nome de ganhos potenciais mais robustos pode ser considerado um investidor arrojado.

No mundo pós-coronavírus, essa classificação ainda faz sentido? A pergunta surge porque a crise atual tem características nunca vistas antes – e se, afinal, tudo mudou, vale revisitar os conceitos de perfil de investidor para saber se também eles não são mais os mesmos. Em duas evidências práticas do ineditismo da crise atual, no Brasil, a Selic, a taxa básica de juros do país, está em 3% ao ano, patamar que é, de longe, o mais baixo já registrado, enquanto o real, campeão mundial de desvalorização em 2020, já chegou a perder mais da metade de seu valor no ano, em relação ao dólar.

Mas, se o mundo é outro, a essência sobre ser conservador ou arrojado nos investimentos segue a mesma. O que mudou é a percepção sobre o risco. “Em outras crises, o cenário costumava ser de alta da Selic. Não é o que vemos agora. Os juros caíram, e muitos investidores de renda fixa observaram rentabilidades negativas em suas cotas, pelo efeito da marcação a mercado, em alguns casos mais acentuadas que as baixas em renda variável”, diz Marcos Lyra, gerente da Daycoval Investimentos. “Isso mostrou a muitos investidores que mesmo a renda fixa tem riscos.”

O desdobramento disso, afirma ele, pode ser visto no grande movimento de saída dos fundos de renda fixa registrado no ano. Entre janeiro e abril, os resgates líquidos nessa classe de fundos somaram R$ 120,8 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Em parte, explica Lyra, os resgates foram feitos por investidores que não estavam habituados com perdas. E, em parte, porque o conceito de custo de oportunidade ficou mais claro a quem antes optava por renda fixa como sinônimo de proteção contra riscos.

“É também porque a percepção sobre o risco é outra que as saídas de pessoas físicas da bolsa não foram tão grandes quanto as que ocorreram, por exemplo, na crise financeira de 2008. Os investidores estão mais bem informados”, afirma Enrico Cozzolino, estrategista de Renda Variável da Daycoval Investimentos. Ainda com o exemplo da indústria de fundos, se os resgates nos de renda fixa passaram de R$ 120 bilhões entre janeiro e abril, os fundos de ações tiveram captação líquida positiva de R$ 44,3 bilhões nesse período, de acordo com a Anbima. Foi o segmento da indústria que mais cresceu nos primeiros quatro meses do ano.

Os juros em patamares nunca vistos antes afetam os rendimentos de ativos de renda fixa, mas o mercado já tem se adaptado a esse novo cenário. Antes, o usual era que papéis como os CDBs tivessem seu rendimento atrelado ao do Certificado Depósito Interbancário (CDI). Com juros tão baixos, falar em 115% do CDI já não significa um ganho tão expressivo. Com isso, cresce no mercado a oferta de títulos com parte da remuneração pré-fixada, que oferecem CDI mais um percentual sobre ele. “As mudanças nos produtos acompanham as mudanças no cenário econômico. Para o investidor, também é importante se adaptar a isso revendo o balanço de seu portfólio, por exemplo”, diz Lyra. Mas com a clareza de que, mesmo que sob uma crise sem precedentes, como a atual, o perfil do investidor não muda de uma hora para a outra.

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