INVESTIMENTOS

A velha poupança voltou a crescer. Por que ela continua sendo uma aplicação ruim, mesmo com os juros em baixa

A caderneta de poupança, que surgiu quando o Brasil ainda nem era uma república, voltou, em pleno ano de 2020, a atrair os recursos de muitos brasileiros. Essa velha conhecida teve captação líquida de R$ 84,4 bilhões no primeiro semestre, o maior volume para o período em toda a série histórica do Banco Central, iniciada em 1995.

Criada em 1861 pelo imperador D. Pedro II, ela tem sido a principal fonte de recursos do Sistema Financeiro da Habitação, lançado nos anos 60 para tentar reduzir a falta de moradia no país. Mas uma coisa é o peso da caderneta para o mercado imobiliário, e outra, o seu (baixo) apelo como aplicação financeira. Pela lógica de quem investe para multiplicar seu patrimônio, essa aplicação não tem atrativos. E está na hora de essa lição ser assimilada de vez.

A poupança rende 70% da Selic mais a Taxa Referencial (TR) – esta, zerada desde setembro de 2017. Como os juros básicos da economia brasileira estão em 2,25% ao ano, seu menor patamar registrado até hoje, a poupança pode ter dado a pessoas pouco habituadas com o universo de investimentos a impressão de ter se tornado mais “competitiva”. Mas isso não é verdade.

O blog conversou com Geisi Panontin, analista sênior de investimentos do Banco Daycoval, sobre aparentes “atrativos” da poupança que, na verdade, não são exclusividade dela. Há produtos de investimento muito mais rentáveis – e que têm exatamente o mesmo nível de risco.

Entenda esse mitos associados à poupança:

Segurança

Quem tem recursos na poupança está seguro de que não perderá esse dinheiro mesmo que seu banco vá à falência. Essa segurança existe por causa do Fundo Garantidor de Créditos, uma instituição mantida pelos bancos. Em caso de quebra de algum deles, o FGC, como é conhecido, cobre até R$ 250 mil em depósitos que cada CPF tem por instituição. Esse limite cobre as aplicações de praticamente todos os brasileiros que têm algum dinheiro guardado. De acordo com o próprio fundo, hoje, mais de 99% dos investidores têm aplicações no sistema financeiro de até R$ 250 mil.

Ocorre que o mesmo FGC que dá segurança a quem tem dinheiro na poupança protege também o patrimônio que os investidores têm na forma de CDBs, papéis emitidos pelos bancos. O fundo cobre ainda as aplicações em letras de crédito imobiliário (LCI), do agronegócio (LCA), de câmbio e hipotecárias e em recibos de depósito bancário (RDBs), todos eles produtos de renda fixa.

Isenção de IR

De fato, não há imposto de renda sobre a poupança. Mas ela não é a única aplicação com essa característica. Igualmente isentas são as LCIs e LCAs – que, como dito acima, são cobertas pelo FGC. Normalmente, esses papéis têm carência mínima de 90 dias, o que significa que os investidores não podem sacar antes desse prazo o dinheiro que aplicaram; há, no entanto, LCIs e LCAs que oferecem liquidez diária depois do tempo mínimo de permanência da aplicação.

“Se o investidor consegue se programar para manter o dinheiro guardado por pelo menos 90 dias, esses papéis podem ser boas alternativas”, diz a analista do Daycoval. No caso de papéis pós-fixados, é possível encontrar LCIs e LCAs que, a depender da instituição e do prazo de vencimento, podem ter remuneração superior a 110% do CDI. E, como não há isenção de IR, esse rendimento é líquido.

Liquidez diária

Primeiro, é preciso colocar essa “vantagem” da poupança em perspectiva. A liquidez diária permite que o investidor saque seu dinheiro quando quiser, mas, se a movimentação ocorrer antes da data de aniversário da caderneta, a aplicação perde o rendimento acumulado até ali. É preciso reforçar: sacar dinheiro da poupança antes da data correta pode significar abrir mão de até 29 dias de rendimento da aplicação. Com a Selic em seu menor nível na história, todo desperdício de rendimento tem que ser evitado.

Dito isso, é preciso ficar claro que a liquidez diária não é exclusividade da poupança. Há CDBs no mercado que oferecem a possibilidade de resgate já no primeiro dia da aplicação. A movimentação precoce não vale a pena porque há cobrança de IOF e imposto de renda sobre o rendimento dos CDBs. Como as alíquotas são regressivas, quanto mais tempo o dinheiro fica na aplicação, menor será o imposto cobrado.

Mas o IR não significa necessariamente que o CDB escolhido perderá a vantagem comparativa em relação à poupança. Em um exemplo disso, em uma campanha em andamento, o Daycoval lançou um CDB com liquidez diária desde o início e rendimento de 110% do CDI (para pessoas físicas), no caso de aplicações a partir de R$ 10 mil.

Reserva de emergência

Há quem associe a caderneta de poupança a uma aplicação que pode ser acessada facilmente em uma situação de emergência. Isso mostra, na prática, como, em investimentos, o Brasil ainda tem o desafio de superar uma “barreira cultural”, como afirma a analista Geisi Panontin.

A pandemia criou uma crise econômica sem precedentes, e de escala global. Nesse cenário, toda reserva financeira fará diferença. E a caderneta de poupança definitivamente não é o instrumento para fazer crescer essa reserva.

Explica-se: na edição mais recente do Boletim Focus (20/7), os economistas ouvidos pelo Banco Central preveem que a inflação oficial do Brasil fechará 2020 em 1,72%. Por sua vez, a poupança, que rende 70% da taxa Selic, tem, no momento, retorno projetado de 1,57% para os próximos 12 meses.

Os prazos, aqui, não são coincidentes (a previsão de inflação é para o ano fechado e a do rendimento da poupança, para os próximos 12 meses), mas os dados servem para ilustrar o argumento: a tendência atual é que, mesmo baixa, a inflação engula o pouco que a caderneta vai render nos próximos meses.

Essa, definitivamente, não é uma precaução a ser adotada em um ano de crise como 2020.

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