INVESTIMENTOS

Como saber se uma ação já caiu ou subiu demais

Por Patrick Cruz

As ações da rede de farmácias Raia Drogasil foram negociadas por R$ 111 no fim do dia 5 de junho, data em que os papéis da empresa de serviços financeiros Cielo encerraram os negócios cotados a R$ 4,50. Essas são, respectivamente, as ações de maior e menor valor nominal do Ibovespa, o principal índice da bolsa brasileira B3. É certo dizer que Cielo é “mais barata” que Raia Drogasil? Ou que um papel da rede de farmácias “vale” quase 25 vezes mais que um da adquirente?

Ambev e Itaú Unibanco, por sua vez, acumulam desvalorização nominal quase idêntica em 2020, de 24,5% e 24,3%, respectivamente. Qual desses papéis de fato perdeu mais valor? E, para quebrar a cabeça: é possível dizer se algum deles caiu demais?

Investidores minimamente habituados com o mercado acionário sabem que essas não são perguntas meramente semânticas. Eles também sabem que pode haver mais de uma resposta para elas, sem que isso signifique que haja respostas necessariamente certas ou erradas.

É com esse tipo de raciocínio que analistas, investidores e gestores de recursos lidam todos os dias. Como se vê, identificar as ações mais e menos adequadas para diferentes portfólios, que já não costuma ser uma tarefa trivial, ficou ainda mais desafiador no atual cenário. No pano de fundo estão, somados, uma pandemia de escala sem precedentes, responsável pela retração econômica global, e uma aguda crise política.

Segundo Enrico Cozzolino, estrategista de renda variável da Daycoval Investimentos, uma das consequências da queda geral das bolsas foi a redução de alguns “exageros” do mercado de ações. “Era possível perceber, já no fim de 2019, que havia papéis sendo negociados por valores que não podiam se sustentar”, afirma. Essa leitura é feita com a análise dos chamados múltiplos, uma correlação entre diferentes indicadores dos balanços das empresas e os preços de suas ações.

Dito de outra forma, com os múltiplos, é possível ler as entrelinhas do desempenho de uma ação. Essa avaliação, que compõe o que a análise fundamentalista, vai além da simples comparação de preços nominais dos papéis ou de seu desempenho em relação ao Ibovespa.

A partir de três múltiplos, Cozzolino elaborou especialmente para o blog leituras práticas do desempenho de papéis ao longo da fase mais aguda de declínio da bolsa brasileira até o atual estágio da pandemia. O recorte foi feito entre 29 de fevereiro, antes de o Ibovespa entrar em queda livre, e 18 de maio, data que marca o início de um rally na B3. Veja a seguir:

Preço sobre valor patrimonial: ação “cara” ou “barata”?

A correlação entre o preço e o valor patrimonial de uma ação ajuda a avaliar se uma empresa está “cara” ou “barata” na bolsa. Para identificar esse múltiplo, é preciso dividir o preço nominal do papel por seu valor patrimonial (obtido a partir da divisão do patrimônio líquido da empresa pela quantidade de ações emitidas).

Em linhas gerais, se esse número está próximo de 1, diz-se que a ação está sendo negociada em linha com o valor patrimonial da companhia. Quando o número está acima de 1, uma das leituras possíveis é que o mercado acha que vale a pena pagar pela ação mais do que o patrimônio líquido da empresa vale. E, se o múltiplo está muito acima, pode-se concluir que, a menos que os investidores tenham se empolgado além da conta, a ação dessa empresa é uma ótima pedida.

São os exageros a que o estrategista de renda variável da Daycoval Investimentos fez menção. Entre 29 de fevereiro e 18 de maio, a relação entre preço e valor patrimonial das ações das empresas dos setores de consumo negociadas na B3 caiu de 4,8 para 2,7. Esse declínio reflete o ajuste das expectativas para o desempenho dessas companhias durante e após a pandemia.

Não há excesso apenas na sobrevalorização. Cozzolino cita o caso da Cogna Educação (antiga Kroton Educacional). Também no intervalo entre 29 de fevereiro e 18 de maio, a relação entre preço e valor patrimonial da ação da companhia, que era de 1, caiu pela metade. Depois disso, de 18 de maio a 5 de junho, os papéis da Cogna subiram mais de 48%. “Uma das possibilidades é a de o mercado ter avaliado que, mesmo em um cenário de crise econômica, talvez não houvesse justificativa para a relação preço/valor patrimonial da empresa cair pela metade”, afirma ele.

Valor da empresa sobre o Ebitda: horizonte para o pós-pandemia

O Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciações e amortizações) mede a capacidade de uma empresa gerar caixa a partir de sua atividade principal. A correlação do valor da empresa e seu Ebitda permite enxergar se ela está com suas operações “em dia”, como define Cozzolino. “Se, no contexto atual, esse múltiplo não se altera muito, é sinal de que a empresa conseguiu manter um bom desempenho operacional”, explica ele.

Em momentos de crise, esse múltiplo costuma oscilar menos em companhias de setores como energia e saneamento básico. Isso ocorre porque, por terem contratos de longo prazo, com preços previamente definidos, é possível enxergar melhor como deve ser o desempenho de suas operações no futuro.

Um exemplo prático é o da concessionária de energia Cemig. Entre 29 de fevereiro e 18 de maio, seu múltiplo valor da empresa/Ebitda caiu de 8,4 para 7,7 – um declínio suave, dada o contexto atual, de profunda crise, diz Cozzolino. Outro exemplo é o da transmissora de energia Taesa, na qual o múltiplo passou de 10,9 para 8,8.

Preço sobre o lucro: perda que pode ser oportunidade

O múltiplo preço/lucro, um dos comparativos mais utilizados por analistas e investidores, indica quanto os investidores estão dispostos a pagar pelos ganhos de uma companhia. Em tese, quanto menor o número, maior o ceticismo do mercado com uma empresa – mas, caso os investidores estejam subestimando o potencial da companhia, maior é também a possibilidade de valorização das ações.

O estrategista de renda variável da Daycoval Investimentos cita o índice preço/lucro do Banco do Brasil, que caiu de 7,2 para 4,4 entre 29 de fevereiro e 18 de maio. “Essa queda refletiu uma percepção de aumento do risco de a crise política afetar o desempenho do banco e também as incertezas sobre a adimplência no mercado de crédito”, explica. “Nesse cenário, o papel precisa oferecer algum desconto para seguir atrativo.”

É nessas horas que os investidores precisam avaliar se o desconto já não é bastante – ou, em outras palavras, se o ceticismo com o desempenho da empresa (e de suas ações na bolsa) já não se transformou em oportunidade de investimento.

Seja qual for o múltiplo analisado, ele não dirá toda a verdade sobre a empresa. É preciso avaliar mais de um desses índices e lembrar que todo o mercado está lendo os mesmos números. Isso significa que uma das regras de ouro para os investidores segue inalterada: não se pode apostar todo o portfólio em um só papel ou categoria de ativo. “Na renda variável, é preciso sempre ter cautela”, diz Cozzolino.

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