Cenário macroeconômico para agosto: perspectiva Brasil e mundo

Tempo de leitura: 3 minutos

Este artigo reúne a análise de Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval, sobre os principais acontecimentos do mês de agosto no Brasil e no exterior, com foco nos dados mais recentes, nas projeções e nas expectativas que devem orientar suas decisões de investimento.

Julho combinou incertezas persistentes no ambiente global com revisões relevantes na leitura doméstica, especialmente na inflação e na trajetória dos juros. Para acompanhar a análise completa com nosso economista-chefe, assista ao vídeo abaixo.

Cenário internacional

No exterior, o clima de incerteza continuou dominando a agenda. Os ruídos em torno das tarifas nos Estados Unidos e a indefinição sobre o conflito no Oriente Médio mantiveram a volatilidade elevada nos preços do petróleo, um fator que segue no radar dos investidores atentos ao risco global.

Nos Estados Unidos, os dados apontaram uma economia com crescimento saudável. No campo dos preços, a inflação veio abaixo do esperado e trouxe algum alívio. Ainda assim, esse respiro pede cautela: não é possível afirmar que a convergência da inflação em direção à meta esteja consolidada no curto prazo.

Nesse contexto, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,50% e 3,75%, em decisão dividida. Nossa avaliação é que as taxas por lá devem permanecer estáveis no patamar atual até o fim deste ano. Contudo, com o mercado de trabalho em equilíbrio e a inflação ainda acima da meta, sobretudo em um ambiente de incerteza elevada, uma nova alta nas próximas reuniões não pode ser descartada.

Cenário doméstico

No Brasil, os indicadores mais recentes referentes ao segundo trimestre confirmaram a desaceleração da atividade em relação ao ritmo aquecido observado no início do ano — movimento que já estava dentro das nossas projeções.

Veja os principais destaques do mês:

  • PIB mantido em 1,7% para o fim do ano, agora com composição revisada. O crescimento passa a ser menos puxado pela demanda interna e mais pelas exportações, reflexo dos embarques recordes de soja e da forte produção de petróleo.
  • Mercado de trabalho em acomodação. O desemprego segue em patamar baixo, ao redor de 5,5%, mas os sinais de perda de força ficaram mais claros: o rendimento real caiu pelo terceiro mês consecutivo e a criação de vagas formais é a mais fraca desde 2021.
  • IPCA de 2026 revisado de 5,2% para 5,0%. A revisão reflete surpresas baixistas recentes, principalmente na alimentação no domicílio.

Mesmo com esse quadro mais favorável nos preços, o cenário demanda atenção. Os riscos climáticos associados ao El Niño no último trimestre e a aproximação do processo eleitoral — que normalmente vem acompanhada de aumento da volatilidade — reforçam a importância de acompanhar de perto cada movimento do mercado.

Selic: projeções

A inflação corrente mais benigna, a desaceleração da atividade e a projeção do próprio Banco Central para 2028 em torno da meta nos levaram a ajustar a projeção para a Selic de 14,00% para 13,75% ao final deste ano.

Em linha com a sinalização do Banco Central, passamos a considerar um novo corte de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro. Vale destacar, porém, que alguns fatores ainda preservam o risco de uma pausa no próximo encontro:

  • a contínua desancoragem das expectativas de inflação no Boletim Focus;
  • um balanço de riscos assimétrico para o lado altista;
  • a indefinição geopolítica no Oriente Médio, com potencial impacto sobre os preços do petróleo.

Esse conjunto de variáveis mantém o quadro em aberto e reforça a relevância de uma leitura consultiva e criteriosa dos próximos passos da política monetária.

Conclusão

Agosto reforça um cenário de transição. No exterior, a incerteza permanece elevada e o Fed segue em compasso de espera, com risco de alta ainda no radar. No Brasil, a atividade desacelera de forma consistente, a inflação dá sinais mais benignos e a Selic caminha para novos ajustes, ainda que cercada de riscos que pedem cautela.

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